{"id":5552,"date":"2022-12-30T07:06:11","date_gmt":"2022-12-30T10:06:11","guid":{"rendered":"https:\/\/tribunadapraia.com.br\/?p=5552"},"modified":"2022-12-30T07:06:11","modified_gmt":"2022-12-30T10:06:11","slug":"pele-o-maior","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tribunadapraia.com.br\/?p=5552","title":{"rendered":"Pel\u00e9, o maior"},"content":{"rendered":"<p><em>Antes que a Fifa e o capitalismo se dessem conta do poder midi\u00e1tico \u2013 e lucrativo \u2013 do futebol, coube a um brasileiro se tornar a primeira celebridade mundial com a bola nos p\u00e9s. Nenhuma personalidade brasileira projetou mais \u2013 e melhor \u2013 a imagem do Pa\u00eds do exterior do que Pel\u00e9.<\/em><\/p>\n<ul>\n<li><span style=\"color: #ff6600;\">por Andr\u00e9 Cintra<\/span><\/li>\n<\/ul>\n<p>A morte de Edson Arantes do Nascimento, o Pel\u00e9, na tarde desta quinta-feira (29), aos 82 anos, encerra a \u00e9pica trajet\u00f3ria do maior jogador da hist\u00f3ria \u2013 e tamb\u00e9m do brasileiro mais aclamado em todos os tempos. A primeira defini\u00e7\u00e3o \u00e9 mais consensual: dentro de campo, ningu\u00e9m fez mais do que o \u201cRei do Futebol\u201d, embora os que n\u00e3o o viram jogar, sobretudo os mais jovens, volta e meia queiram depreci\u00e1-lo, proclamando novos reis.<\/p>\n<p>Em esportes individuais, como o t\u00eanis, os gigantes precisam, sim, apresentar n\u00fameros robustos, e n\u00e3o apenas talento. Tenista que n\u00e3o conquistou nenhum dos quatro torneios de Grand Slam pode at\u00e9 ter feito hist\u00f3ria, mas n\u00e3o merece um reconhecimento t\u00e3o elevado, porque est\u00e1 em outra categoria \u2013 e ponto.<\/p>\n<p>No futebol, os n\u00fameros podem \u2013 e devem \u2013 ser contextualizados, ainda que, nesse quesito, Pel\u00e9 tenha muito o que exibir, a come\u00e7ar pelos tr\u00eas t\u00edtulos mundiais com a camisa da Sele\u00e7\u00e3o Brasileira. Dos jogadores em atividade hoje, nenhum chegou sequer \u00e0 segunda Copa do Mundo. Craques como Puskas, Di St\u00e9fano, Eus\u00e9bio, Cruyjff, Zico, Platini e Cristiano Ronaldo jamais venceram um Mundial da Fifa.<\/p>\n<p>Ainda nos n\u00fameros, h\u00e1 diverg\u00eancias \u2013 para l\u00e1 de irrelevantes \u2013 sobre o tanto de gols que Pel\u00e9 marcou. A CBF (Confedera\u00e7\u00e3o Brasileira de Futebol) fala em 1.281. O Santos aponta 1.282. J\u00e1 o Livro dos Recordes (Guinness Book) crava 1.283. S\u00f3 pelo Santos, seu \u00fanico clube no Brasil, foram nada menos que 1.091 \u2013 Pepe, o segundo maior artilheiro santista, fez 403.<\/p>\n<p>A grandeza de Pel\u00e9, por\u00e9m, n\u00e3o est\u00e1 em tais ou quais n\u00fameros. \u201cO dif\u00edcil, o extraordin\u00e1rio, n\u00e3o \u00e9 fazer mil gols, como Pel\u00e9. \u00c9 fazer um gol como Pel\u00e9\u201d, sintetizou o poeta Carlos Drummond de Andrade, em novembro de 1969, quando Pel\u00e9 marcou o mil\u00e9simo gol, de p\u00eanalti, diante do Vasco da Gama, no Maracan\u00e3.<\/p>\n<p>Muito antes de Drummond, quem perscrutou e traduziu precocemente tamanha genialidade foi Nelson Rodrigues. Em 26 de fevereiro de 1958, ap\u00f3s o Santos vencer o Am\u00e9rica-RJ por 5 a 3, com quatro gols de Pel\u00e9, o cronista esportivo o chamou de \u201cRei do Futebol\u201d pela primeira vez \u2013 o jovem atleta santista tinha apenas 17 anos.<\/p>\n<p>Foi somente em 1980 que Pel\u00e9, j\u00e1 aposentado do futebol, recebeu um ep\u00edteto \u00e0 altura, ao ser eleito o \u201cAtleta do S\u00e9culo\u201d pelo jornal franc\u00eas L\u2019Equipe. Jornalistas das 20 maiores publica\u00e7\u00f5es esportivas do mundo conclu\u00edram, na ocasi\u00e3o, o que Nelson Rodrigues j\u00e1 sabia 21 anos antes: \u201c\u00c9 um g\u00eanio indubit\u00e1vel! Pel\u00e9 podia virar-se para Michelangelo, Homero ou Dante e cumpriment\u00e1-los com \u00edntima efus\u00e3o: \u2018Como vai, colega?\u2019\u201d.<\/p>\n<p>Na mitologia grega, Baco atendeu a Midas e lhe deu o poder de transformar tudo o que tocasse em ouro. Na mitologia do futebol, Pel\u00e9 transformou at\u00e9 as v\u00edtimas de seus lances em celebridades. \u00c9 o caso do p\u00eanalti que deu origem ao mil\u00e9simo gol. \u201cTodos os anos, assim que se aproxima o anivers\u00e1rio do mil\u00e9simo gol, eu dou entrevista. Eu sou lembrado por esse gol de Pel\u00e9, e n\u00e3o pelo futebol que eu joguei\u201d, lamentou, certa vez, Fernando, o zagueiro do Vasco que cometeu o p\u00eanalti. O goleiro argentino Andrada se ficou igualmente imortalizado no Brasil por ter sofrido o mil\u00e9simo gol do \u201cRei\u201d.<\/p>\n<p>Esta era o toque-de-Midas de Pel\u00e9. Antes que a Fifa e o capitalismo se dessem conta do poder midi\u00e1tico \u2013 e lucrativo \u2013 do futebol, coube a um brasileiro se tornar a primeira celebridade mundial com a bola nos p\u00e9s. \u00c9 a saga de um brasileiro \u201cpobre, preto e perif\u00e9rico\u201d, nascido numa fam\u00edlia modesta de Tr\u00eas Cora\u00e7\u00f5es (MG) e radicado tamb\u00e9m modestamente em Bauru (SP).<\/p>\n<p>Em campo, a convers\u00e3o do menino desconhecido em uma lenda universal se deu entre a estreia do jogador no Santos aos 15 anos, em 1956, at\u00e9 a aposentadoria no Cosmos, dos Estados Unidos, aos 36, em 1977. Sua \u00faltima partida oficial foi o amistoso entre as duas equipes, no Giant Stadium, em Nova Jersey \u2013 ele jogou um tempo em cada time.<\/p>\n<p>Foi a noite em que Pel\u00e9 disse \u201clove, love, love\u201d, o trecho mais marcante de seu discurso de despedida dos gramados, citado na m\u00fasica Love, Love, Love, de Caetano Veloso. \u201cDe todas as can\u00e7\u00f5es inspiradas em mim, acho que essa \u00e9 a que mais me emociona\u201d, escreveu Pel\u00e9 em sua autobiografia.<\/p>\n<p>\u00c0quela altura, Pel\u00e9 j\u00e1 havia eternizado tanto os gols marcados quanto os perdidos, tanto os dribles e as fintas quanto as rea\u00e7\u00f5es dos advers\u00e1rios, tanto o seu espet\u00e1culo pr\u00f3prio quanto a participa\u00e7\u00e3o \u2013 por vezes, comovente \u2013 de seus coadjuvantes. Machado viveu e morreu feliz com a fama de ter sido o goleiro que sofreu mais gols de Pel\u00e9 em uma \u00fanica partida \u2013 nada menos que oito na impiedosa goleada do Santos por 11 a 0 sobre o Botafogo-SP, em 1964.<\/p>\n<p>Em contrapartida, o arqueiro ingl\u00eas Gordon Banks, campe\u00e3o mundial em 1966, preferia relativizar a reputa\u00e7\u00e3o de seu embate mais not\u00e1vel contra Pel\u00e9. Foi na Copa do Mundo de 1970, no M\u00e9xico, quando o Brasil venceu a Inglaterra por 1 a 0. Nos primeiros minutos de jogo, Banks espalmou de forma espetacular uma cabe\u00e7ada \u00e0 queima-roupa de Pel\u00e9, naquela que \u00e9 considerada a melhor defesa em Mundiais.<\/p>\n<p>Houve zagueiros conhecidos como os \u201cmelhores marcadores\u201d de Pel\u00e9. A leva vai de P\u00edter (do Comercial-SP) ao italiano Giovanni Trapattoni (Milan), passando por Aldemar (Palmeias) e Roberto Dias (S\u00e3o Paulo). O defensor Vicente foi reverenciado em Portugal, na Copa-1966, por ter \u201cca\u00e7ado\u201d e inutilizado Pel\u00e9 em campo. De tanto apanhar, o \u201cRei\u201d j\u00e1 revidou com atletas desleais como o alem\u00e3o Schultz e o uruguaio Matosas, em lances que hoje, revistos pelo VAR, lhe renderiam cart\u00e3o vermelho. No esporte e na vida, n\u00e3o existem deuses perfeitos.<\/p>\n<p>Noves fora esses pecadilhos, as cr\u00edticas mais col\u00e9ricas a Pel\u00e9 se concentram em suas a\u00e7\u00f5es e opini\u00f5es fora de campo. Ele teria sido af\u00e1vel demais com os poderosos de plant\u00e3o, inclusive sob a nefasta e criminosa ditadura militar (1964-1985). Omitem, no entanto, que o regime, desconfiado de Pel\u00e9, o investigou por 13 anos \u2013 e tamb\u00e9m omitem que Pel\u00e9 apoiou a redemocratiza\u00e7\u00e3o e posou para fotos com a camisa das \u201cDiretas J\u00e1\u201d.<\/p>\n<p>Nos meios esportivos, sua proximidade com os cartolas foi invariavelmente questionada, mesmo que, nesse meio t\u00e3o corrupto e corruptor, n\u00e3o haja esquemas comprovados criminosos envolvendo Pel\u00e9. Na vida pessoal, o ataque mais recorrente diz respeito \u00e0 sua recusa em reconhecer a ex-vereadora Sandra Regina Machado como filha biol\u00f3gica. Quando um teste de DNA confirmou a condi\u00e7\u00e3o, Pel\u00e9 preferiu n\u00e3o ter contato com Sandra pessoalmente \u2013 o que lhe rendeu nova onda de contesta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O caso inclui fake news \u2013 como o boato de que Pel\u00e9 se recusou a pagar o tratamento de c\u00e2ncer de Sandra. Mas a imagem do \u201cRei\u201d saiu arranhada. N\u00e3o foi a primeira nem a \u00faltima vez em que o ex-jogador foi acusado de ter filhos fora do casamento. Por regra, eram den\u00fancias falsas e oportunistas, o que levou Pel\u00e9 a ficar reticente a qualquer solicita\u00e7\u00e3o de reconhecimento.<\/p>\n<p>A demanda de Sandra era justa, mas incomodou Pel\u00e9 devido \u00e0 publicidade dada ao imbr\u00f3glio. Tanto que, ap\u00f3s esse caso e diante de outro pedido, Pel\u00e9 n\u00e3o apenas reconheceu Fl\u00e1via Kurtz como sua filha \u2013 mas tamb\u00e9m financiou seus estudos e ainda a nomeou como sua representante no Instituto de Pesquisa Pel\u00e9 Pequeno Pr\u00edncipe.<\/p>\n<p>Fl\u00e1via acompanhou o c\u00e2ncer terminal de Pel\u00e9 no Hospital Albert Einstein, S\u00e3o Paulo. Nesta quarta-feira (28), na v\u00e9spera da morte do \u201cRei\u201d, ela posou para fotos com os filhos de Sandra, Oct\u00e1vio Felinto Neto e Gabriel Arantes do Nascimento, que visitaram o av\u00f4 no hospital. \u201cAgrade\u00e7o a Deus por ter proporcionado esse momento, pois era o que minha m\u00e3e mais sonhava\u201d, tuitou Oct\u00e1vio.<\/p>\n<p>O encontro iminente com a morte mudou a postura de Pel\u00e9. M\u00e1rio de Andrade confessou ser \u201cbastante artista, pelo menos at\u00e9 o ponto de desejar essa besteira inacredit\u00e1vel e inexplic\u00e1vel de continuar querido depois de cad\u00e1ver, osso, p\u00f3 filho da puta\u201d. Pel\u00e9 n\u00e3o tinha d\u00favidas de popularidade, mas talvez lhe faltasse essa derradeira harmonia em fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Na vida p\u00fablica, o \u201cRei do Futebol\u201d, o \u201cAtleta do S\u00e9culo\u201d, continuar\u00e1 idolatrado e contraditado. Nenhuma personalidade brasileira projetou mais \u2013 e melhor \u2013 a imagem do Pa\u00eds do exterior. Atletas que jogaram com Pel\u00e9 podem acus\u00e1-lo de omiss\u00e3o pol\u00edtica e insensibilidade social, mas nenhum, at\u00e9 hoje, o descredenciou como atleta ou mesmo como companheiro de equipe.<\/p>\n<p>\u00c9 pouco, dizem seus detratores. N\u00e3o \u00e9. Quem pendurou as chuteiras h\u00e1 45 anos e permanece em evid\u00eancia foi longe demais. O futebol e o Brasil se tornaram melhores com Pel\u00e9 \u2013 e n\u00e3o \u00e9 preciso ser um g\u00eanio como Nelson Rodrigues para enxergar o \u00f3bvio. O \u201cRei\u201d est\u00e1 morto. Viva o \u201cRei\u201d!<\/p>\n<ul>\n<li><span style=\"color: #ff6600;\">Fonte: VERMELHO.org.br<\/span><\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Antes que a Fifa e o capitalismo se dessem conta do poder midi\u00e1tico \u2013 e lucrativo \u2013 do futebol, coube a um brasileiro se tornar a primeira celebridade mundial com a bola nos p\u00e9s. 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