{"id":1234,"date":"2020-04-25T20:15:10","date_gmt":"2020-04-25T23:15:10","guid":{"rendered":"https:\/\/tribunadapraia.com.br\/?p=1234"},"modified":"2020-04-25T20:16:49","modified_gmt":"2020-04-25T23:16:49","slug":"artigo-ha-41-anos-o-olodum-transformo-o-pelourinho-e-tornou-se-um-emblema-da-cultura-baiana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tribunadapraia.com.br\/?p=1234","title":{"rendered":"ARTIGO: H\u00e1 41 anos, o Olodum transformo o Pelourinho e tornou-se um emblema da cultura baiana"},"content":{"rendered":"<p>(*) por Roberto Aguiar, Salvador (BA)<\/p>\n<p>No dia 25 de abril de 1979, na casa n\u00ba 11 da Rua Santa Isabel, no Pelourinho, nascia uma pequena agremia\u00e7\u00e3o carnavalesca somando for\u00e7as ao movimento de cria\u00e7\u00e3o de blocos afros iniciado pelo Il\u00ea Aiy\u00ea, em 1974, que, junto com o Alvorada, fundado em 1975, fazia contraponto a grandes blocos de trio, como Os Internacionais e Os Corujas, que dominavam o Carnaval.<\/p>\n<p>Carlos Nascimento, Geraldo Miranda, Jos\u00e9 Carlos Nascimento, Jos\u00e9 Lu\u00eds Almeida, Francisco Almeida, Ant\u00f4nio Almeida e Edson Santos da Cruz foram os sete diretores eleitos com a responsabilidade de colocar o bloco na rua.<\/p>\n<p>Os ensaios abertos nos fins de semana, improvisados em uma quadra de ch\u00e3o de barro nos fundos do Teatro Miguel Santana, foi a forma encontrada pelo grupo para chamar a aten\u00e7\u00e3o da comunidade, que se identificou com o projeto. Assim, na sexta-feira de Carnaval de 1980, foli\u00f5es vestidos com adere\u00e7os nas cores branco e vermelho desfilaram no novo bloco afro da cidade: o Olodum.<\/p>\n<p>Vocalista da banda desde a funda\u00e7\u00e3o, Lazinho lembra: \u201cDentro do grupo e da comunidade cada um sabia fazer uma coisa e foi ajudando. A fantasia, o carro de som, tudo foi feito por n\u00f3s. Logo no primeiro ano, mesmo com pouca estrutura, chamamos aten\u00e7\u00e3o. Um bloco do povo negro, de um bairro pobre e discriminado, brincando no Carnaval\u201d.<\/p>\n<p>O Olodum conseguiu ir \u00e0s ruas nos dois anos seguintes \u2013 o que n\u00e3o foi poss\u00edvel em 1983. De acordo com Lazinho, dificuldades financeiras e na organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o permitiram o desfile. Ap\u00f3s o Carnaval, a diretoria se reuniu, avaliou a import\u00e2ncia de reestruturar o grupo e convidar novos integrantes. Seria uma reviravolta.<\/p>\n<p>Neguinho do Samba e Jo\u00e3o Jorge (atual presidente), ambos vindos do Il\u00ea Ay\u00ea; M\u00e1rcia Virgens, Cristina Rodrigues e outros ativistas ligados \u00e0 luta contra o racismo aceitaram o convite e ingressaram no projeto. Na reconfigura\u00e7\u00e3o, o Olodum deixou de ser apenas um bloco de Carnaval para se transformar em uma organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o governamental (ONG), o Grupo Cultural Olodum.<\/p>\n<p>A afirma\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria se expressou com a ado\u00e7\u00e3o das cores internacionais da di\u00e1spora africana \u2013 vermelho (o sangue), amarelo (o ouro da \u00c1frica), preto (o orgulho do povo negro) e o branco (a paz mundial). As mulheres foram incorporadas \u00e0 diretoria, com Cristina Rodrigues eleita presidente.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Jorge, 62 anos, acredita que foi uma mudan\u00e7a radical: \u201cDemos um vi\u00e9s cultural, social, pol\u00edtico, ligado \u00e0s pautas e lutas do movimento negro, com atividades socioculturais durante o ano inteiro\u201d.<\/p>\n<p>Projetos como Rufar dos Tambores come\u00e7aram a ser desenvolvidos no bairro com objetivo de aperfei\u00e7oar crian\u00e7as e adolescentes na arte musical. A iniciativa transformou as ruas estreitas do Pelourinho em salas de aula a c\u00e9u aberto. Os alunos aprendiam a tocar sob a orienta\u00e7\u00e3o do mestre Neguinho do Samba (1955-2009). Desse projeto vieram os tr\u00eas atuais maestros da banda-show do Olodum: Bartolomeu Nunes, Andr\u00e9ia Reis e Gilm\u00e1rio Marques.<\/p>\n<p>As quatro d\u00e9cadas do Olodum<br \/>\nO bloco afro nasceu no dia 25 de abril de 1979, no Maciel-Pelourinho, e tornou-se um dos grupos mais conhecidos do Brasil no exterior<\/p>\n<p>Bartolomeu, hoje conhecido como mestre Memeu, h\u00e1 35 anos lavava carros no Terreiro de Jesus quando foi convidado por Neguinho do Samba a ingressar no projeto. Hoje ele \u00e9 o maestro n\u00ba 1 da banda-show do Olodum, composta por 19 m\u00fasicos. \u201cO Olodum mudou a minha vida, a vida de um filho de uma lavadeira e de um vigilante, nascido e criado no Maciel \u2013 Pelourinho, bairro marginalizado e visto pelas pessoas apenas como um lugar de prostitui\u00e7\u00e3o e tr\u00e1fico. Mas aqui sempre teve pessoas do bem\u201d.<\/p>\n<p>Andr\u00e9ia Silva, 44 anos, foi uma das primeiras mulheres a ingressar na banda. \u201cTinha 12 anos de idade. Devido ao sucesso da m\u00fasica Fara\u00f3 Divindade do Egito, a meninada do Tabo\u00e3o organizou uma banda de lata. Ensai\u00e1vamos todos os s\u00e1bados. Um dia, o mestre Neguinho do Samba passou e ouviu o som. Ficou curioso e foi ver o que era. Quando ele viu a gente ensaiando, chamou todo mundo para o Olodum\u201d.<\/p>\n<p>Apesar de no in\u00edcio haver \u201cresist\u00eancia e discrimina\u00e7\u00e3o\u201d por muitos pensarem que percuss\u00e3o era uma tarefa para homens, aos 16 anos Andr\u00e9ia passou a fazer parte da banda adulta. \u201c Tenho muito orgulho do que fa\u00e7o, me sinto vitoriosa\u201d, reconhece.<\/p>\n<p>Protesto<\/p>\n<p>A experi\u00eancia da Rufar dos Tambores fez surgir a Escola Olodum, com uma proposta pedag\u00f3gica envolvendo cultura, educa\u00e7\u00e3o e tecnologia numa perspectiva afirmativa da identidade negra.<\/p>\n<p>Essa vis\u00e3o tamb\u00e9m se refletiu nas letras das m\u00fasicas, tratando dos problemas que a comunidade enfrentava, ampliando as reivindica\u00e7\u00f5es de reconhecimento, como em Protesto Olodum, composta por Tatau: \u201cDeclara a na\u00e7\u00e3o, Pelourinho contra a prostitui\u00e7\u00e3o\/ Faz protesto, manifesta\u00e7\u00e3o \/ E l\u00e1 vou eu\u201d.<\/p>\n<p>Outra estrat\u00e9gia utilizada pelo grupo para chamar a aten\u00e7\u00e3o para as pautas pol\u00edticas em torno da quest\u00e3o \u00e9tnico-racial foi a realiza\u00e7\u00e3o de passeatas. Do Pelourinho ao Toror\u00f3, uma multid\u00e3o denunciava a viol\u00eancia policial, reivindicava o respeito ao candombl\u00e9 e \u00e0 cultura negra, seguindo uma Kombi de som.<\/p>\n<p>Essas a\u00e7\u00f5es passaram a interessar outras comunidades negras e perif\u00e9ricas de Salvador, movidas por uma transforma\u00e7\u00e3o musical contagiante. Foi isso que fez a m\u00fasica Fara\u00f3 Divindade do Egito, composta por Luciano Gomes, ser cantada pela popula\u00e7\u00e3o em 1987, mesmo sendo rejeitada nas r\u00e1dios e ficado com o terceiro lugar na premia\u00e7\u00e3o de blocos.<\/p>\n<p>O sentimento no Olodum, no entanto, era que o bloco havia vencido. E outros rumos se desenharam, de acordo com Jo\u00e3o Jorge: \u201cFicamos superchateados. A partir da\u00ed, decidimos nunca mais concorrer, disputar com ningu\u00e9m. Resolvemos fazer o nosso trabalho. Quem n\u00e3o ouviu e n\u00e3o enxergou o Olodum continuaria cego, surdo e mudo. Resolvemos conquistar o Brasil e o mundo. Colocamos o p\u00e9 na estrada\u201d.<\/p>\n<p>No mundo<\/p>\n<p>A banda deu in\u00edcio a uma turn\u00ea nacional, com show de lan\u00e7amento no Clube Periperi, ao lado da banda Os Paralamas de Sucesso. Depois, viajaram para Bras\u00edlia, S\u00e3o Paulo e Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Tudo isso foi potencializado com a for\u00e7a percussiva que expandiu a batida do samba-reggae, criado por Neguinho do Samba, para al\u00e9m dos limites do Pelourinho. A voz de Margareth Menezes, no disco Fara\u00f3, de Djalma Oliveira, levou a m\u00fasica para o mundo. Hoje ela avalia o que isso representou: \u201cO Olodum e o samba-reggae atravessaram as fronteiras e fizeram uma revolu\u00e7\u00e3o questionando a necessidade de termos uma vis\u00e3o mais justa e humana em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s conquistas do povo afro-brasileiro\u201d.<\/p>\n<p>Para o m\u00fasico e arranjador Letieres Leite (fundador da Rumpilezz), \u201co samba-reggae foi uma revolu\u00e7\u00e3o que impactou a m\u00fasica mundial. Algo que poucas vezes aconteceu com a m\u00fasica brasileira. Isso fez do Olodum a grande ponta de lan\u00e7a, a catapulta de todo movimento musical da Bahia. \u00c9 um patrim\u00f4nio que eles preservam e que precisa ser reconhecido\u201d.<\/p>\n<p>Foi absoluto reconhecimento quando, em 1990, um estrangeiro chegou \u00e0 casa n\u00ba 9 do Largo do Pelourinho. \u201cEi, tem um gringo aqui querendo falar com algu\u00e9m do Olodum\u201d, gritou uma pessoa do lado de fora do casar\u00e3o. Lazinho abriu a porta e o homem se apresentou: era Paul Simon. Como o vocalista n\u00e3o entendia muito a l\u00edngua inglesa, foi ao telefone e ligou para outro membro do grupo, que n\u00e3o acreditava no que tinha acabado de ouvir. Mas era verdade, o c\u00e9lebre cantor e compositor americano queria gravar com o Olodum.<\/p>\n<p>Essa visita proporcionou que grupo cultural iniciasse um interc\u00e2mbio internacional. A banda viajou aos Estados Unidos, participou de um programa de TV e gravou The Obvious Child, do disco de Simon que se chamaria The Rhythm of the Saints. Um videoclipe da can\u00e7\u00e3o foi gravado no Pelourinho e exibido em mais de cem pa\u00edses. No ano seguinte, o Olodum foi convidado para o Festival de Arte de Nova York e realizou um show para mais de 750 mil pessoas no Central Park.<\/p>\n<p>J\u00e1 em 1996, foi a vez do rei do pop mundial, Michael Jackson, vir ao Pelourinho gravar com o grupo o videoclipe da m\u00fasica They don\u2019t Care About Us. A indica\u00e7\u00e3o foi do diretor Spike Lee, ap\u00f3s uma minuciosa pesquisa sobre som de tambores da \u00c1frica, Cuba e Am\u00e9rica Latina. \u201c\u00c9 um dos dias mais felizes de toda a minha trajet\u00f3ria nesses 40 anos do Olodum\u201d, diz emocionado o vocalista Lazinho. \u201cImposs\u00edvel n\u00e3o chorar. Tudo que passamos para chegar at\u00e9 aqui. N\u00e3o imaginava que a ideia de criar um bloco de Carnaval tomaria a propor\u00e7\u00e3o que o Olodum tomou\u201d.<\/p>\n<p>O grupo tamb\u00e9m foi respons\u00e1vel pela recep\u00e7\u00e3o de diversos l\u00edderes pol\u00edticos em Salvador, com destaque para Nelson Mandela, l\u00edder da luta contra o apartheid na \u00c1frica do Sul, em 1991, e Malala Yousafzai, Pr\u00eamio Nobel da Paz, em 2018.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da consagra\u00e7\u00e3o musical, o Olodum tamb\u00e9m promoveu outras express\u00f5es art\u00edsticas, com o Festival de M\u00fasica e Artes Olodum (Femadum), realizado desde os anos 1980, contemplando literatura, artes pl\u00e1sticas e audiovisual.<\/p>\n<p>No segundo semestre de 1990, em parceria com o diretor Marcio Meirelles, foi criada a companhia negra Bando de Teatro Olodum. Ao espet\u00e1culo de estreia, Essa praia \u00e9 nossa (1991), seguiram-se, entre outros, o aclamado \u00d3 pa\u00ed, \u00f3 (1992), e o Bando revelaria talentos como os atores L\u00e1zaro Ramos e \u00c9rico Br\u00e1s.<\/p>\n<p>Al\u00e9m das artes, o som do Olodum tamb\u00e9m se associou ao esporte. As copas do mundo de futebol s\u00e3o comemoradas no Pelourinho com a Torcida Brasil Olodum h\u00e1 sete edi\u00e7\u00f5es do evento.<\/p>\n<p>Pir\u00e2mides da bahia<\/p>\n<p>Ap\u00f3s 11 discos gravados em est\u00fadio, dois \u00e1lbuns ao vivo e quatro colet\u00e2neas, em setembro o Olodum viaja para a China e alcan\u00e7a uma marca de 40 pa\u00edses visitados em 40 anos. A disputada Ter\u00e7a da B\u00ean\u00e7\u00e3o, no ver\u00e3o, e os ensaios aos domingos durante todo o ano seguem tendo a Pra\u00e7a Teresa Batista como palco. E hoje s\u00e3o atendidos 360 alunos de baixa renda na Escola Olodum.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Jorge arrisca uma s\u00edntese dessas quatro d\u00e9cadas: \u201cN\u00e3o resolvemos todas as coisas. Nem era para resolver todas. N\u00e3o temos raiva nem rancor. Apanhamos. Batemos. Acertamos muito. Erramos tamb\u00e9m. Mas edificamos as pir\u00e2mides da Bahia. As pir\u00e2mides da cultura, da ci\u00eancia, do encontro com o mundo inteiro\u201d.<\/p>\n<p>Entre as falhas, ele destaca a necessidade de levar o Olodum para o interior. A banda j\u00e1 fez shows em 25 cidades da Alemanha, mas esteve apenas em 20 munic\u00edpios baianos, de um total de 417. \u201cIsso precisamos corrigir. Este ano, queremos realizar oficinas e pocket shows em 30 cidades. O baiano tem que sentir que o Olodum \u00e9 dele, hoje estamos muito presentes no Rec\u00f4ncavo. Temos que ir para todas as regi\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p>O presidente do grupo atribui ao Olodum o papel de for\u00e7a motriz nas transforma\u00e7\u00f5es do Pelourinho e no empoderamento dos moradores atrav\u00e9s da arte: \u201cSomos um rito de passagem entre a Bahia passada e suas dificuldades, o presente e suas dificuldades, e o futuro do mundo melhor que vir\u00e1. O Olodum \u00e9 a revolu\u00e7\u00e3o da emo\u00e7\u00e3o. Somos uma solu\u00e7\u00e3o amorosa, prazerosa, criativa, empreendedora, gerada na Bahia, a partir de uma popula\u00e7\u00e3o negra e mesti\u00e7a. Contribu\u00edmos para a Bahia ficar mais moderna, contempor\u00e2nea, plural e cosmopolita\u201d.<\/p>\n<p>Imagem: Olodum Oficial<\/p>\n<p>Nota:<\/p>\n<p>(1) Publicado em 25 de abril de 2019 por ocasi\u00e3o de anivers\u00e1rio de 40 anos do Olodum, nas p\u00e1ginas da Revista MUITO (jornal A TARDE) contando a hist\u00f3ria de quatro d\u00e9cadas dos tambores afros que levaram a Bahia para o mundo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(*) por Roberto Aguiar, Salvador (BA) No dia 25 de abril de 1979, na casa n\u00ba 11 da Rua Santa Isabel, no Pelourinho, nascia uma pequena agremia\u00e7\u00e3o carnavalesca somando for\u00e7as ao movimento de cria\u00e7\u00e3o de blocos afros iniciado pelo Il\u00ea Aiy\u00ea, em 1974, que, junto com o Alvorada, fundado em 1975, fazia contraponto a grandes blocos de trio, como Os Internacionais e Os Corujas, que dominavam o Carnaval. 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