{"id":1194,"date":"2020-04-21T18:12:55","date_gmt":"2020-04-21T21:12:55","guid":{"rendered":"https:\/\/tribunadapraia.com.br\/?p=1194"},"modified":"2020-04-21T18:13:54","modified_gmt":"2020-04-21T21:13:54","slug":"preparar-se-para-a-guerra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tribunadapraia.com.br\/?p=1194","title":{"rendered":"PREPARAR-SE PARA A GUERRA"},"content":{"rendered":"<p>Em 1939, pouco antes de Hitler atacar a Pol\u00f4nia e iniciar a Segunda Guerra, Freud lan\u00e7a seu \u00faltimo livro, Mois\u00e9s e a religi\u00e3o monote\u00edsta. Neste livro que trata da constitui\u00e7\u00e3o de identidades coletivas atrav\u00e9s de identifica\u00e7\u00f5es a lideran\u00e7as, h\u00e1 uma ideia surpreendente, sintetizada em uma pequena frase: \u201cMois\u00e9s criou o povo judeu\u201d. Ou seja, n\u00e3o se tratava de afirmar que a lideran\u00e7a era a express\u00e3o dos tra\u00e7os de seu povo. Na verdade, o quadro estava de cabe\u00e7a para baixo. Aquele que ocupava o lugar do poder e prometia uma grande transforma\u00e7\u00e3o acabava por constituir o povo, por definir os tra\u00e7os prevalentes de sua identidade coletiva. Ou seja, havia uma for\u00e7a produtiva do poder, n\u00e3o apenas uma for\u00e7a coercitiva. Da representa\u00e7\u00e3o do poder, vinha uma for\u00e7a de identifica\u00e7\u00e3o que moldava paulatinamente os sujeitos a ela submetidos, que os transformava em seus afetos, em sua estrutura ps\u00edquica, em suas a\u00e7\u00f5es. O poder molda os que a ele se assujeitam.<\/p>\n<p>Freud n\u00e3o conheceu o Brasil, nem nunca ouvi falar de Jair Bolsonaro. Mas \u00e9 certo que os \u00faltimos dias mostraram com precis\u00e3o sua tese de que o poder molda sujeitos, fazendo-os a sua imagem e semelhan\u00e7a. Todos est\u00e3o a perceber essa muta\u00e7\u00e3o na qual express\u00f5es de desprezo, indiferen\u00e7a e viol\u00eancia antes inimagin\u00e1veis de serem feitas a c\u00e9u aberto e na frente de todos se tornam manifesta\u00e7\u00f5es cotidianas, em uma espiral em dire\u00e7\u00e3o ao abismo que parece n\u00e3o ter fim. Ou algu\u00e9m realmente esperava ver, em meio a uma pandemia, pessoas a manifestar na Avenida Paulista dan\u00e7ando com um caix\u00e3o, fazendo buzina\u00e7o em frente a hospital, zombando abertamente da dor e do desespero de milhares de pessoas infectadas e lutando pela vida em situa\u00e7\u00f5es hospitalares prec\u00e1rias? Como se fosse o caso de expressar, da forma a mais aberta e brutal, a indiferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o aos 2500 corpos mortos at\u00e9 agora, ao menos se confiarmos nos n\u00fameros subnotificados. Como se fosse o caso de repetir os \u201cdeslizes\u201d, as \u201cderrapadas\u201d, ou melhor, os tra\u00e7os de car\u00e1ter de quem ocupa o poder.<\/p>\n<p>Alguns podem dizer que isto sempre esteve a\u00ed, na indiferen\u00e7a das classes mais altas ao destino e as chacinas perpetradas contra as classes vulner\u00e1veis. Mas o pior erro \u00e9 n\u00e3o perceber as placas tect\u00f4nicas se movendo por estar com os olhos submersos na l\u00f3gica repetitiva do \u201csempre foi assim\u201d. N\u00e3o, h\u00e1 algo novo a acontecer. Pois n\u00e3o se trata apenas da conhecida m\u00e1quina necropol\u00edtica do estado brasileiro. Trata-se da explos\u00e3o de rituais p\u00fablicos de auto-sacrif\u00edcio e de viol\u00eancia. Trata-se de uma din\u00e2mica \u201csuicid\u00e1ria\u201d. Erra quem acredita que essas hordas envoltas na bandeira nacional \u201cn\u00e3o sabem do perigo que correm\u201d, s\u00e3o \u201cburras\u201d, como se fosse simplesmente o caso de procurar explicar claramente o que \u00e9 uma pandemia para todos voltarem para casa.<\/p>\n<p>Diante do fascismo, Adorno e Horkheimer disseram um dia que nada mais est\u00fapido do que tentar ser inteligente. Nossa pretensa supremacia intelectual ainda ir\u00e1 nos matar. Ela nos faz n\u00e3o ver como, no fundo, h\u00e1 uma parte da popula\u00e7\u00e3o brasileira que deseja isto e se disp\u00f4s a jogar roleta russa com todos e com elas mesmas. \u00c9 este desejo que deve ser compreendido. Pois esta ser\u00e1 sua forma de se sacrificar por um ideal, mesmo que este ideal n\u00e3o prometa nada mais do que o pr\u00f3prio sacrif\u00edcio, nada al\u00e9m de um movimento permanente em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 cat\u00e1strofe.<\/p>\n<p>Neste sentido, estamos a observar uma muta\u00e7\u00e3o impressionante. Mesmo sendo o pior governo do globo terrestre diante da pandemia (comparado apenas a Bielorrusia, ao Turcomenist\u00e3o, e ao renegado que governa a Nicar\u00e1gua), o apoio a Bolsonaro n\u00e3o cai. Ele muda paulatinamente. Setores da classe alta v\u00e3o abandonando-o enquanto ele compensa com ades\u00f5es nas classes populares, repetindo um movimento que vimos inicialmente com o lulismo. Dificilmente, este n\u00famero mudar\u00e1. Ele nem subir\u00e1, nem cair\u00e1. Mas a qualidade deste apoio mudar\u00e1. Ele deixar\u00e1 de ser simples apoio para ser identifica\u00e7\u00e3o profunda e aguerrida. Ao final, teremos um pa\u00eds com 30% de camisas negras dispostos a tudo, pois acreditam estar em um processo revolucion\u00e1rio de ressurei\u00e7\u00e3o nacional. Este processo n\u00e3o tem mais retorno.<\/p>\n<p>N\u00e3o ser\u00e1 a primeira vez na hist\u00f3ria que uma din\u00e2mica de afetos e cren\u00e7as desta natureza ganhou corpo. Esta implos\u00e3o aberta de qualquer princ\u00edpio elementar de solidariedade, esse desprezo com os que morrem, esse culto do pr\u00f3prio suic\u00eddio como prova de \u201ccoragem\u201d, essa viol\u00eancia cada vez mais autorizada at\u00e9 a forma\u00e7\u00e3o aberta de mil\u00edcias populares, esta cren\u00e7a em uma revolu\u00e7\u00e3o nacional redentora, isto tudo tem nome. Costuma responder pura e simplesmente por \u201cfascismo\u201d.<\/p>\n<p>Movimentos desta natureza sempre se aproveitam da fraqueza de seus advers\u00e1rios. Enquanto Bolsonaro moldava uma parte da sociedade a sua imagem e semelhan\u00e7a, havia sempre os especialistas em quest\u00f5es palacianas florentinas capazes de identificar as intrigas que iriam \u201cparalisa-lo\u201d, os erros que indicariam que \u201cacabou para voc\u00ea\u201d. At\u00e9 pouco tempo, Bolsonaro foi descrito como uma \u201crainha da Inglaterra\u201d. Isto at\u00e9 ele mandar embora seu ministro da Sa\u00fade sem que nenhum cataclismo anunciado realmente ocorresse. N\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 nada que ir\u00e1 para-lo, nenhum recuo ocorrer\u00e1. Um projeto dessa natureza s\u00f3 \u00e9 parado de forma brutal. Mas esta brutalidade necess\u00e1ria n\u00e3o est\u00e1 na consci\u00eancia dos atores pol\u00edticos atuais.<\/p>\n<p>Poder\u00edamos ter come\u00e7ado mobiliza\u00e7\u00f5es cont\u00ednuas pelo impeachment h\u00e1 um m\u00eas. Mais uma vez, analistas finos diziam que n\u00e3o era a hora, que isto s\u00f3 fortaleceria o discurso persecut\u00f3rio do Governo. Como se o Governo precisasse de n\u00f3s para alimentar seu pr\u00f3prio discurso persecut\u00f3rio e mobilizar suas hostes. N\u00e3o, agora eles denunciam um \u201cplano\u201d para derrubar Bolsonaro, sendo que a oposi\u00e7\u00e3o sequer conseguiu colocar um pedido de impeachment em marcha, sequer permitiu a maioria de gritar por seu nome. No m\u00e1ximo, suas lideran\u00e7as endossaram um pedido de \u201cren\u00fancia\u201d. Faltou pedir \u201cpor favor\u201d a Bolsonaro para que ele ca\u00edsse em si e se afastasse de bom grado. Como dizia Maquiavel, a aud\u00e1cia \u00e9 qualidade fundamental diante da fortuna. Mas o \u00fanico ator que demonstra aud\u00e1cia a altura da situa\u00e7\u00e3o \u00e9 o pr\u00f3prio Governo. Em breve teremos uma tentativa de golpe vendida como \u201ccontra-golpe preventivo\u201d, sem que a oposi\u00e7\u00e3o tenha feito nada mais do que abaixos-assinados, peti\u00e7\u00f5es e cartas p\u00fablicas. A \u00faltima a acreditar em uma democracia parlamentar que simplesmente n\u00e3o existe mais.<\/p>\n<p>Acrescente ao quadro, o c\u00e1lculo macabro que o Governo conseguiu impor a parcelas da popula\u00e7\u00e3o. Para elas, trata-se de escolher entre a bolsa ou a vida, entre a morte econ\u00f4mica certa e a morte f\u00edsica prov\u00e1vel. Nesse c\u00e1lculo, o certo acaba por vencer o prov\u00e1vel, ainda mais diante de setores da popula\u00e7\u00e3o submetidos ao exterm\u00ednio, ao desaparecimento, a chacina. Este \u00e9 o gr\u00e3o de racionalidade da situa\u00e7\u00e3o apresentada por Bolsonaro. Ela s\u00f3 se sustenta porque a terceira op\u00e7\u00e3o est\u00e1 interditada, a saber, nem a bolsa, nem a vida, mas os dois.<\/p>\n<p>Diante disto, que a sociedade constitua redes de auto-defesa contra o pior que est\u00e1 por vir. H\u00e1 duas semanas, pessoas que batiam panela em suas casas contra o governo foram v\u00edtimas de disparos de balas de espingarda de chumbo. Em manifesta\u00e7\u00f5es pr\u00f3-governo, cidad\u00e3os e cidad\u00e3s oposicionistas foram violentamente agredidos. Quantas semanas ainda faltam para come\u00e7ar os linchamentos e as balas reais?<\/p>\n<p>Vladimir Safatle &#8211; El Pa\u00eds<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 1939, pouco antes de Hitler atacar a Pol\u00f4nia e iniciar a Segunda Guerra, Freud lan\u00e7a seu \u00faltimo livro, Mois\u00e9s e a religi\u00e3o monote\u00edsta. Neste livro que trata da constitui\u00e7\u00e3o de identidades coletivas atrav\u00e9s de identifica\u00e7\u00f5es a lideran\u00e7as, h\u00e1 uma ideia surpreendente, sintetizada em uma pequena frase: \u201cMois\u00e9s criou o povo judeu\u201d. 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